A depressão é falta de Deus?


A DEPRESSÃO É FALTA DE DEUS?

É interessante como a humanidade repete os mesmos erros de seu passado. A premissa de que depressão é falta do que fazer, falta de Deus, chilique... é desinformada e cruel.

As pesquisas científicas mais recentes são categóricas em afirmar que a fé religiosa interfere positivamente na capacidade de recuperação de um doente. Por outro lado, existem pessoas que atribuem à sua fé religiosa seu estado de saúde plena.

Sem dúvida, a fé é um recurso transformador da mente, porém, sem discernimento ela deságua no fanatismo e no preconceito, o que é sempre pernicioso. Os bens espirituais, na concepção essencialmente cristã, não são materiais ou físicos, por isso, as bênçãos divinas não podem ser medidas pelo sucesso financeiro ou pelo vigor físico de um indivíduo. "Mas ajuntai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem e onde os ladrões não minam nem roubam." - Mateus 6:20.



O que pretendemos discutir neste artigo é o outro lado da moeda.

Será o doente um indivíduo sem fé, sem Deus? Será que o otimismo o pensamento positivo, a boa vontade e a fé em Deus são suficientes para que tenhamos saúde?


PRECONCEITO ARRAIGADO

As pessoas que assim pensam cometem vários erros do ponto de vista médico e outros tantos do ponto de vista evangélico. Elas assim agem por interpretarem os sintomas dessa doença como puramente emocionais ou com falhas de caráter. Desconhecem os
mistérios da mente em sua interação completa envolvendo o universo biológico, emocional e espiritual.

O religioso precipitado julga o doente ignorando o verdadeiro mecanismo da sua doença que é expressão de anomalia física e não de anomalia de caráter. Assim como o diabetes traduz a falta de insulina, a depressão reflete déficit de neuro-hormônios no cérebro.

Existe, logicamente, um intricado emaranhamento entre questões emocionais e o curso mais ou menos favorável dessa condição, como em qualquer outra situação de desequilíbrio orgânico.

Portanto, "nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não se trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações, e então cada um receberá de Deus o seu louvor" - Corintios 4:5.

Os hansenianos contemporâneos de Jesus eram tidos como malditos e pecadores, como vítimas do castigo divino.
Sob o prisma da medicina, sabemos que humor é uma função da mente regulada por neuro-hormônios. A pessoa com distúrbios de humor não está triste ou alegre. Ela está deprimida ou eufórica. em medicina não são sinônimos, podemos ter uma pessoa deprimida e alegre e triste.
A tristeza é um sentimento em reação a um fato exterior. A depressão não depende de causa externa. Daí o termo depressão endógena.

Todas as doenças têm causas multifatoriais. Existe um componente físico, um emocional e outro espiritual. A conjunção dos três níveis de desiquilíbrio é que abre as portas do organismo humano para a instalação de doenças.

Choca-me forma recorrente e incisiva com que as pessoas esclarecidas, atuantes dentro de comunidades religiosas as mais diversas, afirmam que para elas a depressão é falta de Deus.
Como se fosse uma questão de escolha. Chegam a cogitar que os medicamentos antidepressivos seriam os responsáveis pela doença. É lastimável que essa visão distorcida seja tão presente em nossa sociedade.

Trata-se de uma questão relevante, pois o doente com depressão
tem ao seu lado, em sua família, pessoas com esse pensamento.
O que resulta em um retardo no diagnóstico, prolonga o sofrimento
do deprimido e boicota seu tratamento. Essa visão se transfere ao
doente e, ele sente-se ainda pior. Considera-se fraco, incapaz ou
indolente.

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