Chá



"Um discípulo procurou um mestre, ele queria aprender com esse mestre, pois ele era uma pessoa muito admirada e reconhecida na região. Eles iniciaram uma conversa. O discípulo começou por contar quem ele era; o que fazia; o que ele queria; no que acreditava... Eu, eu, eu... a mente que sabe tudo sobre si mesma.Entretanto, o mestre serviu um chá. Primeiro serviu a sua xícara e, em seguida, a xícara do discípulo. O chá chegou à beira da xícara e começou a transbordar. O discípulo apanhou um susto e disse "Mestre, o que está a fazer? O chá está a transbordar!". Ao que o mestre responde: "Você é essa xícara. Eu não tenho como colocar chá nessa xícara, sendo que a xícara já está cheia. Você está tão cheio de consciência sobre você mesmo: do que você acha que é; do que você acha que é melhor para você. Já não cabe nenhum ensinamento meu. Primeiro você precisa esvaziar a sua xícara para depois colocarmos algo novo dentro."



A ideia de nos mantermos fiéis ao que julgamos ser por uma vida inteira, pressupõe em última instância não evoluir. Serei efetivamente aquilo que os outros esperam de mim. Viverei para sempre contida no padrão que os outros e eu própria criei como minha imagem? Estas e outras perguntas parecem-me bastante pertinentes quando ousamos pensar proceder ou reagir a determinada situação de um modo completamente diferente do qual havíamos feito até então. Porque esta ideia de que "eu sei tudo sobre mim", simplesmente, não nos dá margem para extravasar. É, lá está, um pensamento limitador.

Penso que vivemos tempos de mudança, ou talvez, os tempos sempre foram de mudança. A diferença, sob o meu ponto de vista, é que a mudança que experimentamos nos dias que correrem é mais célere. A vida passa rápido e nós somos desafiados a nos recriar o tempo inteiro.

Neste sentido, viver em sociedade pode ser muito castrador, porque à semelhança dos processos mentais que se desencadeiam e se organizam por categorias, os outros também concebem uma imagem acerca de nós e não estão dispostos a aceitar outra coisa, senão, a categoria na qual nos inseriram, porque isso pressupõe que eles próprios reavaliem os rótulos que nos atribuíram. Ou seja, são obrigados a sair também eles, em certa medida, da sua zona de conforto.

Eu sou uma pessoa tão calma e, por vezes, tenho vontade de virar o mundo do avesso. Serei apenas calma? O que me falta saber sobre mim? Quais serão as minhas limitações mais duras? Onde irei extravasar a imagem faço de mim?

Isto faz-me pensar!

Rasuro a palavra "estagnação".

Como estava sempre a citar um professor de Biologia que tive no secundário: "Não sei para onde vou, mas sei que não vou por aí!".

Nem na juventude estagnarei, envelhecerei - com todas as rugas, cabelos brancos e sabedoria a que tenho direito - e morrerei descansada por me ter tentado reinventar uma vida, apesar das minhas limitações mais resistentes.

Conto Tradicional Chinês

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